Luiz MacPontes
Ela, que distante sublimada,
Nos meus sonhos subsistira feliz,
A descendência da minh'amada,
A descendência que a vida não quis
Vivi – dolente –, elucubrando
A sua graça… A primavera,
Os botões nos ramos ; rebentando,
O desabrochar d'uma quimera
Ela – chorando – balbuciando
Mamãe no colo da minh'amada,
Caminhando, caindo, chutando
Cada futilidade afagada…
Meu bebé, minha donzela,
Uma fantasia, uma fada,
Na minha velhice, sentinela,
Amiga, quase uma namorada
Flecha coibida na aljava:
Não foi, não é, nem advirá jamais,
A gotinha que não gotejava
Inundou-me, e mais, e mais, e mais
A filhotinha do meu delírio,
Sem rosto, sem voz, sem nome, sem Deus,
Nos meus sonhos ainda martírio,
Acaso, dir-lhe-ei um dia adeus?